Bobo da Corte ou Valentim?

Em algum lugar, em uma época que não era a minha e também não era a sua, um Bobo da Corte passeava cabisbaixo pelo Reino, estava mergulhado em seus pensamentos, percebendo que algo nele tinha mudado, que algo nele tinha despertado, quando o Porta Voz Real o abordou e disse:

“O Rei e seus convidados solicitam sua presença”

E o Bobo, imediatamente colocou seu chapeuzinho de Bobo da Corte  e correu para atender o chamado.

Chegando na sala de visitas real, se apresentou aos convidados do Rei e ao invés de fazer mais uma de suas piadas, o que já era de costume, recitou uma poesia, de sua autoria.

Declamou cada palavra com vontade e astúcia e a cada som que saia de sua boca, lágrimas escorriam dos seus olhos de tanto orgulho de seus próprios versos e quando verbalizou a ultima estrofe, recuperou suas emoções, respirou profundamente, voltou-se para a grandiosa e dourada sala e viu os rostos dos exuberantes convidados estáticos, enquanto um silêncio pairou pelo ar.

E o Rei, para demonstrar autoridade, quebrou aquele silêncio e questionou:

“Bobo da Corte, como ousas declamar uma poesia?”

O Bobo da Corte de encheu o peito de ar, tirou a coragem lá do fundo e respondeu:

“Vossa Majestade! Eu não quero mais ser Bobo da Corte, cansei de fazer os outros rirem, quero rir também, quero ser feliz também, apresento-me agora como Valentim, O Poeta!

E o Rei:

“Valentim? Que diabos é Valentim?”

O Bobo prosseguiu:

“Meu nome, Bobo da Corte é o nome que Vossa Majestade me deu, mas o meu nome verdadeiro é Valentim!”

O Rei com todo o seu poder disse:

“Que audácia! Você é um Bobo da Corte, comporte-se como tal!”

E o ex Bobo da Corte respondeu:

“Excelentíssimo Rei, eu era um Bobo da Corte, hoje sou Valentim! O Poeta!

O Rei por sua vez:

“Hahaha! Quem acreditaria que um Bobo da Corte pode ser Poeta?”

E o bobo com assertividade indagou:

“Eu! Eu acredito!”

O Rei tomado por uma fúria insana gritou:

“Guardas! Levem este Bobo da Corte audacioso para a Guilhotina!!!”

O ex Bobo ainda mais cheio de entusiasmo solicitou:

“Vossa Majestade! Permita-me dizer minhas ultimas palavras?”

O Rei consentiu.

E assim o ex Bobo prosseguiu:

“Nasci em um pequeno vilarejo e cresci entre o povo ouvindo que um súdito sempre deve satisfazer as vontades de seu Rei e acreditando nisso fui intitulado por Vossa Majestade Bobo da Corte, até então passei décadas da minha vida escondendo minha verdadeira identidade e colocando por cima do meu rosto esta cara de palhaço e por cima da minha cabeça este chapeuzinho de Bobo, mas sei que posso muito mais do que isso, posso escrever Poemas, tenho este Dom, não preciso ser o que me intitulam, aqui meu Rei, antes de minha morte, eu tiro esta máscara, me desfaço deste chapéu, mostro meu verdadeiro Eu e apresento-me novamente: Muito prazer, sou Valentim! O Poeta!

E se a Guilhotina é o preço que tenho que pagar por minha coragem de assumir quem eu quero ser, que assim seja!”

E lá se foi o Bobo da Corte, ops! Quero dizer, Valentim, O Poeta, carregado pelos Guardas Reais até a masmorra onde aguardaria o dia amanhecer para sua execução.

No alvorecer, um dos Guardas trouxe para Valentim uma cesta e disse:

“Mude-se do povoado e serás perdoado, Vossa Majestade enviou-lhe esta cesta, você tem permissão de abri-la somente quando cruzar a fronteira”

Assim foi feito, e logo após ser libertado, Valentim mudou-se do Vilarejo e quando adentrou uma nova Comunidade, resolveu abrir o presente do Rei, dentro da cesta continha uma linda Boina de lã vermelha com belos pontos de Tricô acompanhada de uma carta selada com o Brasão Real, carta esta que ao abri-la, Valentim não pode conter a emoção enquanto lia, nela estava escrito:

“Eu sempre quis ser Artesão, mas me intitularam Rei, e por décadas eu sou o Rei, mas não tenho coragem de deixar o trono para seguir meu sonho, por isso, em segredo, te digo, vá Valentim! Seja Poeta!

Enquanto que eu, neste Reino vou ficar, escondendo minha frustração por baixo de minha coroa de diamantes, que nada vale, perto da felicidade de ser, quem de verdade, você quer ser.

Que assim seja!”

Com admiração,

Arthur, o Rei.

15 de agosto de 2017

6 Comentários em "Bobo da Corte ou Valentim?"

  1. Que qué isso?!
    Como uma mudança de estação, de tempos em tempos nos brinda com a beleza…
    Lindo!

  2. Que belas palavras Rodrigo!
    Você com certeza é um Valentim!
    😉

  3. Sensacional!!! Belo texto que nos leva a refletir sobre nossos papéis. Parabéns.

  4. Sim Adalberto, uma bela reflexão sobre identidade
    Grata pela leitura!

  5. Fantástico, essa metáfora nos instiga, muito bom, grata pelo artigo.

  6. Eu quem agradeço sua leitura Adriana.
    Obrigada!

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